É Bernardo Soares quem fala, desassossegando-me: “Não compreendo senão como uma espécie de falta de asseio esta inerte permanência em que jazo da minha mesma e igual vida, ficada como pó ou porcaria na superfície de nunca mudar.”
Fomos construídos para a transformação, para a mudança. Não somos o que fomos ao nascer, nem o que eram nossos antepassados. Ao longo dos anos, fomos mudando, adaptando-nos, até como opção única de sobrevivência. Somos seres mutantes por natureza. Os dinossauros que o digam, na imutabilidade que lhes foi fatal, e que Darwin o confirme.
Mas, mesmo com todas as evidências dos mundos a nos gritar aos ouvidos da consciência que a mudança é preciso, teimamos em temê-la como a algo satânico. E nos incomodamos, e nos levantamos e brigamos para que ela não se dê, nem conosco nem com os outros. A falsa segurança que a mesmice da vida diária nos sugere, como enfatiza Soares, é porcaria, é “falta de asseio”.
Assim como o corpo, a cada período de tempo, exige banho, inclusive para revigorar as energias – e o banho nada mais é que uma espécie de mudança de um estado de sujeira para o de limpeza – e não se pode abrir mão desse recurso (até porque é bastante prazerosa a sensação do pós-banho), igualmente devemos manter limpa a alma, em constantes banhos, jogando para longe toda a sorte de impurezas acumuladas pelos vícios da rotina cotidiana.
Um novo ser humano surge a cada momento. A revitalização gerada pelas mudanças é algo de delicioso, de apreciável.
E “há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo”. É aquela esdrúxula situação em que nos sentimos conscientes da merda que é permanecer como estamos, mas nos recusamos a sair do chafurdo, do lamaçal do comodismo em que nos encontramos.
Bernardo me cutuca com mais agudez com esses questionamentos justamente nos momentos em que a vida me acena com mudanças cada vez mais radicais. Aliás, mudanças que abalam mesmo as raízes, que obrigam a um re-pensar incisivo sobre conceitos de vida, sobre decisões antes tomadas. E a mudança urgindo ser feita...
Não digo aqui o cara ser “feito bosta n’água, que vai para onde a onda leva”. Esse é outro extremo. Minhas mudanças precisam ter um norte, um fio condutor, preciso me reconhecer em cada mudança de rumo que dou a meu viver.
Porque acredito em destinos, não em Destino. Penso que a vida me coloca vários fios, várias veredas, que representam meus diferentes destinos. Optar por uma trilha, movimentar-me para e ao longo dela, experimentando se é a que mais me apraz: esta é minha missão e meu compromisso para comigo mesmo. Se quebrar a cara, paciência... uma volta e um recomeço sempre são possíveis, ainda que indesejáveis. Mas se acerto, se me satisfaz minha escolha, vivê-la-ei em toda a plenitude que ela me proporcionar, pelo menos até que ela me seja útil, e até que nada surja que me provoque pensamentos de mudanças.
Não posso lavar os pés duas vezes na mesma água de um córrego; e essa água me dá a mais firme lição de vida, de desacomodação, de desassossego. Preciso me mexer, como condição “sine qua non” de não atrofiar e morrer antes do tempo. Morrer?! espanta-se Soares. Quem vive assim, acomodado, assim quieto, assim conformado, “não morre: acaba, murcha, desvegeta-se”.
Aliás, Fernando Pessoa faz com que relembremos os velhos marinheiros portugueses: “navegar é preciso”. E o que é a navegação senão a grande decisão de tirar o traseiro da fofa almofada do comodismo e lançar-se, febril e determinado, a um mundo de mudanças e decisões.
Em nome de continuarmos a existir, “il faut changer”!
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