sexta-feira, 29 de abril de 2011

BASTAM ROSAS


“Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas –
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves
E basta.”

Basta que a natureza mutante me reconheça vencedor, pois que toda vitória é igualmente efêmera.

Não preciso mais que a simbologia provisória das rosas, a marcar minha breve fronte, porque nada externo é eterno.

Acho ridículas essas pessoas que transformam momentos de glória em pseudoperenidade, reforçada por troféus e medalhas, que superlotam quartos e prateleiras, e se escravizam, e divinizam esses objetos. Não passam de pálidos registros de um passado sem retorno.

Do instante de glória, em que o corpo jovem se superou e superou adversários, mostrando-se mais forte e ágil que os demais, resta uma peça de metal, carcomida pelo tempo, a despeito dos contínuos polimentos de um ancião, cujo corpo atual nem de longe lembra aquele que conquistou o troféu.

Prefiro o reconhecimento de minha glória pela natureza, já que ambos – glória e natureza – são passageiros. E intensificar, sem limites, todo o prazer, a satisfação, a alegria daquele momento, que sei fagulha, que reconheço flash.

“Coroai-me de rosas”, como a Ricardo Reis. Somente elas serão testemunhas fugazes de minha transitória vida, do meu efêmero sucesso, pois que elas também em breve murcham.

Porque virão outros, após mim; e porque preciso experimentar novas vitórias, novas conquistas, novas rosas sobre a fronte breve...

Breve como esta crônica!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

A FEIRA INTERIOR


Quanto de feira há no interior de cada um...

A feira e as luzes da feira...

É um rebuliço nosso interior. Um mesclar-se confuso, sem planejamento, que se inicia de um nada, que logo some, em meio à torrente de pensamentos que se lhe sobrepõem. Dali a pouco, não se sabe mais o que originou aquele pensar, por vezes aquela crise, aquela multiplicidade de conjecturas, aquele turbilhão desconexo de pensares. Governantes externos, psicólogos e que tais (por vezes nós mesmos) tentam pôr um pouco de ordem nesse torvelinho: vã tentativa! Com a fluidez da feira, que se espalha e inunda espaços, indiferentes a qualquer tentativa de organização, pensamentos em redemoinho recusam-se à conformação racional.

Nessa confusão interior, há apenas dois personagens, que dirigem as múltiplas ações, e as determinam: o eu e o não-eu. Justificativas de um é libelo acusatório do outro. O que é bom e útil ao eu raramente o é ao não-eu; o que a este satisfaz, não raro é danoso ao primeiro. Dependendo da maturidade do sujeito em conflito, podem acontecer concessões de lado a lado, que possam tornar viável a convivência. A relação de compra e venda termina por se dar quando ambos, o eu e o não-eu, julgam-se relativamente contemplados na negociação interior. Se bem que isso, por vezes, demora bem mais que uma negociação para a compra de uma palma de banana, na feira exterior.

Os momentos da feira interior não diferem muito da "de fora". O primeiro é de bem cuidada organização interior. Algo se dá que provoca um deslocamento, inicialmente imperceptível, de valores ou sentimentos. Como uma fruta retirada desastradamente à pilha, provoca o desmoronar, que se desenvolve ao longo da crise, de forma mais ou menos intensa. Os momentos finais é o típico fim de feira: vende-se a qualquer preço o que restou inteiro, ainda que deteriorado; contabiliza-se o prejuízo pouco como lucro... o que se quer é escapar daquela crise-feira o mais rapidamente possível.

Quão metafórica pode ser uma feira, no comparar consigo mesmo! Quão de feira pode existir no interior de cada um...

Quão chatos, este texto e o anterior!!! [Na verdade, estão aqui só para provocar quem não tem coragem de assumir o que diz e se esconde em comentário anônimo...]

É que “as minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira, / sozinha e contente como o dia hoje”.

domingo, 17 de abril de 2011

A FEIRA


“Lá vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora.
E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira.
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar.

E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça.
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...”

Lendo este trecho da “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa, não há como não pensar nesse fenômeno social tão popular quão intrigante: a feira. Acresça-se a isso o fato de eu ter morado em Caruaru, uma cidade que tem uma verdadeira vocação comercial para esse tipo de evento – acontecem dezenas de feiras semanais por aqui – o que me dá vasto campo de reflexão.

Primeira coisa que se observa: uma feira não tem planejamento. Começa do nada; inicia com alguém que disponibiliza algo para vender, em qualquer canto. Outro chega junto, mais outro; o primeiro já nem aparece mais, mas a rotina mercantil se estabelece. Desde a Idade Média é assim: não se sabe dos iniciadores de feira nenhuma. Verdadeira manifestação folclórica, no que tem de mais anônimo: autor veramente desconhecido.

Há os governantes que, em nome da organicidade urbana, tentam impor-lhe limites, determinar-lhe tempo e local para acontecer. Não conseguem sucesso: fluido demais, o fenômeno transborda sempre além do definido, cria leis próprias, mecanismos específicos de funcionamento. Se o administrador não entender isso – e são raros os que entendem – pouco ou nada conseguem, no trato com a feira.

Outro fato a se observar: a feira é o espaço mais miscigenado e mais democrático que existe. Há apenas duas classes, bem distintas, cada uma com suas funções, claramente definidas e meticulosamente respeitadas, porque nenhuma é superior à outra: quem compra [o feireiro] e quem vende [o feirante]. A este, é reconhecido o direito de tornar seu produto visível e agradável; é-lhe facultado estabelecer um valor de venda [que não atende a qualquer determinação oficial, mas apenas às tendências naturais do comércio daquele produto naquele dia e naquela feira – a mais bem acabada versão da lei da oferta e da procura]. Ao comprador, cabe perguntar o preço – e este pergunta sempre, mesmo que já saiba por já ter ouvido alguém perguntar e ter escutado a resposta; é como se a informação só tivesse valor se lhe for particularizada – é que o cliente precisa de um gancho para exercer a sublime arte da pechincha: precisa ouvir da boca do feirante o preço da mercadoria, para lhe dar impulso à negociação. Em seguida, vem o ato da escolha: meticulosamente, o feireiro cata o que julga ser as melhores unidades, apalpando, avaliando-lhe o aspecto...

Há mais duas classes, digamos, secundárias na feira: os freteiros, que se alinham mais ou menos aos feirantes, já que também são vendedores, só que de serviços; e os perus, aqueles que nada têm para vender, muito menos dinheiro para comprar. Vão à feira só pelo movimento, pelo divertimento – para jogar conversa fora, saber das novidades [excelente espaço de comunicação e espalhamento de notícias, devidamente adulteradas e comentadas], namorar... ou simplesmente observar, aprender...

Este últimos – eu incluso – podem perceber um terceiro caso: os momentos de que se compõe a feira. No primeiro, cedíssimo – madrugada quase – as frutas e verduras estão cuidadosamente arrumadas; há uma maior variedade na escolha, esta se faz mais fácil pelo fato de as mercadorias terem sido pouco mexidas; em compensação, é o momento mais caro, geralmente utilizado pela classe mais abastada. O durante, que corresponde à presença do sol, é o maior tempo. É quando a feira, de fato, acontece, naquela mescla que deixa a massa humana uniforme – de que já falei antes. O terceiro instante coincide com o declínio do sol, é também a decadência, tanto em termos de mercadoria quanto da classe social dos freqüentadores. Frutas e verduras amassadas – difícil encontrar que preste; os feirantes, na ânsia de irem embora, querem se livrar do que ainda lhes resta a qualquer preço, literalmente: o valor cai a quase nada. Os compradores avançam, céleres, sobre os produtos, numa inútil tentativa de escolha [na maioria dos casos, os molhos já estão feitos, para facilitar, e os valores, irrisórios].

Agora, aparece uma mutação de parte de uma daquelas classes secundárias de que tratei anteriormente: os famosos bêbados de fim de feira, tanto mais teimosos, renitentes, abusados e valentes, quanto mais copos de cachaça tenham ingerido: não raro dão-se furdunços nesses momentos – por um nada se puxa a faca ou empurra-se o contendor. Às vezes, quando a confusão é mais séria, chega a acabar a feira, o que, nas comunidades mais afastadas, corresponde a um acontecimento de grande repercussão, assunto para duas ou três feiras futuras.

Quão metafórica pode ser uma feira, no comparar consigo mesmo! Quão de feira pode existir no interior de cada um... Nem precisa ser poeta do tamanho de um Fernando Pessoa...

quarta-feira, 6 de abril de 2011

"QUANDO A MARÉ ENCHER..."


Estava encalhada, na beira de um manguezal, esperando a maré encher, a dar-lhe vida, uma velha barca de pescador. Torta, pendida, a balouçar-se ao sabor da vibração da água, provocada pelas longínquas ondas que se formavam além mar, e que a ela chegavam pelos meandros do submisso rio.

Álvaro de Campos já dizia que “os navios vistos de perto são outra coisa e a mesma coisa, / dão a mesma saudade e a mesma ânsia doutra maneira”. E eu, que acredito, com Fernando Pessoa, no “mar anterior a nós”, cujos “medos tinham coral e praias e arvoredos”, quedo-me a mirar aquela velha barca de pescador.

Abandonada, sob o sol causticante do meio-dia, apenas ligava-se à realidade da terra por uma grossa e suja corda, que a mantinha presa a uma árvore. Dentro, a sujeira também imperava: bandos de moscas zumbiam por todo o tombadilho e restos de serragem ainda úmida denunciavam o recente trabalho.

Há pouco, sobre as ondas, mar adentro, decerto levara dois, três pescadores, que se equilibravam em embarcação tão frágil e tão vigorosa. E, na luta contra os peixes, o homem sempre ganha – ei-la voltar, ao final do labor – sempre no momento certo – pelo braço do pescador, pelo braço do rio naquele momento cheio, e aportar no banco de areia, donde verá os homens sumirem na margem, com a carga pescada; donde presenciará a água do rio-mar se esvaindo aos poucos, chegando cada vez menos ao seu casco; donde, finalmente, sentirá o gradativo carinho da areia do leito do rio, ao longo de seu baixo ventre.

Parecerá, então, abandonada pelas gentes e pelas águas, balouçando-se ao sabor da vibração da água, esperando a maré encher. Assim a tomarão os passantes, e ela, por certo desdenhosa, sorrirá seu sorriso de madeira, achando engraçada a incapacidade de as pessoas perceberem a utilidade essencial da aparente inutilidade.

Aos olhos ávidos de aprender, como os meus, densa lição de vida dá aquela velha embarcação encalhada, num recanto do manguezal e esperando a maré encher. Fala-me de olhar mais profundo, diz-me de buscar o além das coisas óbvias demais. Grita-me, a alertar sobre quão ilusória pode ser a decrepitude: quanta força pode se esconder sob as ruínas, quanto vigor pode se disfarçar sob os escombros de uma miséria aparente.

Basta a maré encher.

quarta-feira, 30 de março de 2011

POUCO MENOS QUE NADA


Por vezes, quando algo me acontece, que me faz a alma (se é que a tenho) se elevar, corro o terrível risco de querer me sentir maior do que realmente sou. Passo a me achar maior, melhor do que a média do mundo, superior. Isso, apesar de confortável, é fumaça, que, ao se dissipar, na solidão de estar realmente sozinho, bota-me triste como o diabo.

Como não gosto de tristeza, procuro evitar que ela me aconteça – embora nem sempre consiga, é verdade – desviando-me do que me poderia causá-la.

Uma das coisas que me deixam sorumbático é a decepção da volta à realidade menor, depois de um vôo ilusório.

Assim – retomando - ao me sentir, por algum motivo, maior do que realmente sou, procuro formas de voltar à realidade por meus próprios pés. Dói menos, porque a altura é menor. Vivo em constante vigilância aos meus pés, para que não se desgrudem do chão a um ponto que me machuque o voltar ao solo.

Um dos recursos que muito uso é ficar de frente para o mar. Pensar-lhe a imensidão líquida, o infinito temporal, o constante movimento, seu poder sobre tudo e sobre todos, devolve-me a minha pequenez.

O oceano me diz, em sua grandeza, que sou pouco menos que um nada, uma insignificância: uma parte da sombra do cocô do cavalo do capanga do bandido.

Nesses momentos, sento-me a uma pedra ou na areia e, enquanto rabisco o chão com um graveto, faço minhas as palavras de Bernardo Soares:

“Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plaino deserto; e a luz sinistra que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. (...)
Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que não se escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.”

E chega, que, para quem não é porra nenhuma, já ocupei espaço demais!!!

segunda-feira, 7 de março de 2011

PORQUE A VIDA É UMA INCÓGNITA


“Sereno aguarda o fim que pouco tarda.
Que é qualquer vida? Breves sóis e sono.
Quanto pensas emprega
Em não muito pensares.
Ao nauta o mar obscuro é a rota clara.
Tu, na confusa solidão da vida,
A ti mesmo te elege
(Não sabes de outro) o porto.”

A vida é uma incógnita indecifrável (com o perdão da redundância). São muitos os palpites, as hipóteses, as perspectivas, as conjeturas. Mas, ainda assim, indecifrável.

Tem gente que passa a vida inteira tentando decifrá-la. Obviamente, ninguém consegue. Mas uns juram que obtiveram êxito em tão inglória missão e saem por aí, arrotando admoestações, crentes piamente de serem os felizes relicários da sabedoria da vida.

Há os que morrem frustrados, insatisfeitos, por descobrirem – tarde demais – que a explicação da vida é como o horizonte: quando pensamos estar chegando perto, a paisagem se nos mostra ainda mais infinita. E se insistimos absurdamente, um belo [e distante] dia, ver-nos-emos de volta ao começo, feito cachorro que corre atrás do próprio rabo.

Por isso o conselho de Ricardo Reis faz-se tão sábio.

A serenidade no experimentar dessa incógnita é o que garante nossa lucidez e nosso prazer. Um sol breve ou um sono breve, eis a vida. A exiguidade temporal, percebamos, é a marca comum. Daí que estragar essa brevidade tentando entendê-la é, no mínimo, obra de uma estupidez sem limites.

Por essa razão, o conselho de Reis, inspirado na sabedoria do mestre Caeiro: “Quanto pensas emprega / em não muito pensares”. Permuta o muito – e infrutífero – conjeturar pelo viver, viver intensamente cada momento, mesmo que dele não entendas bulhufas. Explicar para quê, se a vida se escancara e se ti entrega, todos os dias?!

Devemos seguir o exemplo sensato do nauta, que vê sua rota no escuro do mar. Porque, na verdade, ele mais sente que vê. E ele não tem como cuidado maior o domínio do mar, mas que este o leve a um porto seguro. Um porto que não está além, aquém ou alhures, mas nele mesmo. O próprio nauta é o seu porto, portanto o chegar é subjetivo, e pode dar-se a qualquer momento e em meio à mais escura solidão.

A lição é preciosa: elegermo-nos nossos próprios portos, para que nossa chegada possa se dar na mais obscura noite ou no dia mais aberto; sob um temporal avassalador ou numa calmaria de verão.

E porque a vida é mesmo uma grande incógnita, chega de ficar aqui, amealhando fiapos de reflexões, na vã tentativa de qualquer coisa. Ponha-se logo um ponto final a estas linhas, abra-se a porta do dia e mergulhe-se de vez no sol que nos espera, lá fora, cuja luz “não sabe o que faz / e por isso não erra e é comum e boa”.

terça-feira, 1 de março de 2011

O POVO


Povo! O que se esconde por trás dessa palavra mágica, tão diversamente utilizada por tão diversas bocas e mentes?!

Massa de manobra de quem se pretende encastelar no poder?! Agrupamento disforme e sem muita consciência de si mesmo enquanto grupo?! Degrau sobre o qual pisam os líderes, para se manterem no topo, no comando?!

Ou...

Onda respeitada pela força descomunal que representa?! Poço de sapiência intuitiva?! Corpo fluído, a amalgamar-se às circunstâncias que lhe pareçam favoráveis momentaneamente?!

Mesmo não sendo sociólogo, não raro me vejo olhando para elementos do povo; meu pensamento traça conjecturas. Tento entender-lhes algumas atitudes. Sem qualquer intenção crítica; apenas movido pela curiosidade – diria melhor: ao sabor da curiosidade, da inércia do vagar mental.

Olhava, hoje, uma cena, no centro da cidade. Um pai instava para que a criança, de seus 3, 4 anos, urinasse por trás de uma escultura, em um jardim público. Encorajava-o, insistentemente, buscando minimizar o que de errado pudesse haver naquele ato. O garoto, constrangido, parecia ser mais sensato; o xixi não vinha de jeito nenhum.

Estive numa agência bancária, estas ante-salas do inferno. A segunda ou terceira vinda de alguém a uma funcionária ou funcionário parece dar-lhe uma intimidade tão forte, que podem ser desprezados os princípios mais elementares de cordialidade e respeito. Gastei não menos que uma hora e doze minutos para cumprir o ritual burocrático de abertura de uma conta; durante esse tempo, cerca de oito ou dez “íntimos” da funcionária que me “atendia” abancavam-se sobre a mesa, a pedir-lhe os mais diversos favores, sem sequer perceber a angústia que se escancarava no rosto da garota, dividida entre a solicitação do “amigo mais íntimo” e a minha natural cara de abusado ante mais uma interrupção.

No ponto de ônibus, aqueles elementos, dispostos mais ou menos estrategicamente, ao longo da calçada, configuram excelente espaço de observação. Uns que fumam, baforando nicotina no rosto de quem teve a infelicidade de ocupar um lugar ao seu lado; outros que mascam chicletes, e, em seguida, cospem-no no chão, indiferentes ao fato de que um coitado pisará e sairá se lambuzando todo; aqueles que arrancam do mais profundo de seus brônquios aquela gosma amarelada e escarra a metros de distância, sem se importar se, na passagem entre os companheiros de calçada, alguns perdigotos alcancem os mais próximos...

Mas a análise da situação faz-se plena na hora em que o coletivo chega: feito abelhas em enxame, há uma rápida e atropelada convergência para a porta do veículo, gerando empurrões, machucões, pisadelas, arranhões... Ninguém cede seu espaço, que é conquistado à base de sopapos e truculências. Mas o mais indescritivelmente admirável é o ar de satisfação que se estampa no rosto de quem conseguiu assim adentrar no ônibus, e se esparrama sobre a cadeira, inchado de orgulho pela sua atitude...

Penso: o que leva o povo a agir assim? Instinto de sobrevivência selvagem de quem não conseguiu refiná-lo? Necessidade de se sobrepor ao outro, mostrar-se superior, mesmo desrespeitando o espaço do semelhante? Ausência de consciência de coletividade?

Sinceramente... não sei!

Talvez Bernardo Soares tenha razão:

“O povo é bom tipo. O povo nunca é humanitário. O que há de mais fundamental na criatura do povo é a atenção estreita aos seus interesses, e a exclusão cuidadosa, praticada tanto quanto possível, dos interesses alheios.”

[E, antes que me espinafrem e me acusem de politicamente incorreto, saliento que “povo” aqui abordado não é classe social, muito menos as inferiores – apesar de os exemplos citados situarem-se nestas (mera coincidência) – mas na acepção que lhe dá Aurélio Buarque de Holanda: “Conjunto de indivíduos que falam a mesma língua, têm costumes e hábitos idênticos, afinidade de interesses, uma história e tradições comuns”.]

[Eu sei: esta observação acima estragou o final do texto... mas fazer o quê? É preciso encher-se de cuidados quando se fala do “povo”...]

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"O DIABO É DEUS DE FOLGA"


“Deus é bom mas o diabo também não é mau”
Bernardo Soares

“Louvado seja deus que não sou bom.”
Alberto Caeiro

Costumamos procurar o mal em vários lugares. Achamos que o encontramos, instalado em instituições, em ações nefastas, até em outras pessoas. Puro maniqueísmo: pensamos que as coisas são boas ou más.

Não existe essa exclusividade. Nem o mal encastela-se fora de nós. Claro, é mais confortável apontá-lo em outrem ou alhures. Confortável, mas nem um pouco confiável. O mal está em cada um de nós, como o bem está. Só se é possível ter boas atitudes se as identificamos como boas; e isso só se dá no contraste com o mal.

Guardamos, em nosso seio, sementes de bem e de mal. Negar uma ou outra é criar uma situação artificial; manter represada qualquer das duas porções é fazê-la potencialmente pronta para explodir ao primeiro “chacoalho” emocional. Por outro lado, aceitar, com serenidade, as duas, e conviver com suas manifestações faz-nos senhores tranquilos de nós mesmos. O equilíbrio dessas duas forças antagônicas produz o auto-controle, o domínio sobre o que somos.

Manifestação tradicional do mal, figura misteriosa e origem alegórica de inúmeras situações deprimentes, o diabo é o maior responsável por quanto de mal há na terra e nos mundos. Da ignorância supersticiosa do homem do campo, que lhe inventa um sem-número de apelidos para não dizer a palavra fatídica que o nomeia, até os mais destacados intelectuais e teólogos, o diabo aparece como a representação do abominável, gerador de toda maldade que se espraia por sobre o planeta.

Na verdade, satanás é a forma de nos convencermos de que somos puros, é a forma de nos acharmos inteiramente bons. Se colocamos a origem do mal numa instituição exterior a nós, dormimos em paz com nossa bondade. E, por nos ser exterior, podemos pintá-la com os mais horrendos borrões: a igreja, a crença popular, os filmes, põem-lhe chifres, rabo, enxofre, pústulas de pus – quanto mais horripilante, mais seguro ficamos de que não está em nós.

Cômodo, mas irreal. O diabo não é exterior. Está dentro de nós. As duas grandes forças que acreditamos dirigir o universo – deus e o diabo – estão implantados em nosso universo interior. Um é o outro; os dois são as duas faces de uma mesma moeda. É na negação de um que existe o outro.

“O diabo é deus de folga”. É deus que, levado por qualquer circunstância que seja, dá um tempo em sua manifestação de santidade e, para alimentá-la, mostra-se diabo e age como tal. Isso o acrescenta enquanto deus.

E o que é deus senão o diabo de folga? Em momentos específicos, satã dá um tempo em sua fábrica de ruindades para angariar matéria-prima, o bem. Isso lhe garante a sobrevivência enquanto diabo.

Ou você, leitor, acha que é outra coisa – que não a manifestação diabólica dentro do seu ser santo – esse desejo mal disfarçado de me espinafrar, me fulminar e me lançar ao mais tenebroso dos infernos, por eu estar escrevendo essas coisas?

domingo, 13 de fevereiro de 2011

SENSAÇÕES


“Nada existe, não existe a realidade, mas apenas sensações. As idéias são sensações, mas de coisas não colocadas no espaço e, por vezes, nem mesmo no tempo.

A lógica, o lugar das idéias, é outra espécie de espaço.

Os sonhos são sensações com apenas duas dimensões. As idéias são sensações com apenas uma dimensão. Uma linha é uma idéia.”

Sonhos, idéias e sensações. Três conceitos já tão discutidos filosoficamente, quanto inéditos, em termos de definição, mesmo de conceituação. Não custa alimentar um pouco essa larga discussão, com alguns pontos que me parecem interessantes.

De que matéria são feitos os sonhos?, já perguntava a Rosana Rios. De farrapos de vida real, aleatoriamente arrumados (ou desarrumados), gerando situações esdrúxulas, como cavalo com bico de pato e asa de urubu. Os sonhos de quem sonha dormindo, diga-se. Confusões gigantes, tanto quanto nossas tentativas “acordadas” de repressão dessas ações. Assustam-nos, nossos sonhos, porque parecem-nos querer entregar nossos mais íntimos segredos, nessa mistura louca de pessoas e fatos que não devem se encontrar.

Acordamos em frangalhos, se em meio a pesadelo tão terrível. E a sensação de alívio após o acordar é tão intensa quanto a sensação de temor e ansiedade no durante, quando ficamos como presos a algo alheio a nossa vontade.

Os sonhos que sonhamos acordados são mais calmos, mais tranquilos, porque manipuláveis; as dosagens são homeopáticas, e somente se fôssemos idiotas é que apostaríamos todas as nossas fichas neles. Sabemos das limitações e impossibilidades de realizá-los. Mesmo assim sonhamo-los, esperançosos.

Os sonhadores mais avoados correm atrás. Poucos os alcançam. A maioria morre longe de conseguir; outros perecem ao se agarrar ao leme do sonho, feito Moema de Santa Rita Durão. As sensações são de ansiedade e conformismo, numa eterna contenda. Daí, o equilíbrio necessário para ir “tocando a vida”, enquanto os sonhos não viram reais.

As idéias são mais atrevidas que os sonhos. Já são começo de realidade. Já se mostram como tentativas em direção à concretização dos sonhos, dos desejos. Tentativas limitadas, claro, mas expressão de uma vontade latente.

Ainda são poucos os que se arriscam a materializar essas idéias. A maioria acaricia-as a vida inteira, até que morram caducas e sem o menor sentido. E morremos juntos, sem saber se teria dado certo ou não. Sensação horrível, esta, de imprecisão de algo que não foi tentado. Idéias abandonadas pelo caminho são inúmeras.

Idéias erradas trazem uma dolorosa sensação de frustração. Mas, junto, vem a sensação confortadora do ensaio. Sei que quando a frustração é maior que a compensação da tentativa, ficamos uma porcaria. Na hora, a frustração invade a plenitude de todos os nossos espaços. Porém, com o tempo, esse sábio professor, vamos aprendendo a conviver com a falha, e terminamos por achá-la simpática e até por creditá-la como “pecado de juventude” e sair contando-a como exemplo ou mesmo piada.

Perceberam que Fernando Pessoa tem razão? Nada existe, a não ser a sensação. Tudo se traduz pelas sensações, pelo que sentimos. Nada nos chega sem passar pelos sentidos, já resmungava Aristóteles.

Daí porque a idéia filosófico-literária do Sensacionismo pessoano, no começo do século passado, teve tão forte impacto. Daí também porque a poesia essencialmente sensacionista de Alberto Caeiro tanto me comove, me completa, exprime o que penso:

TUDO SÃO SENSAÇÕES. O que passa disso é ledo engano, ilusão de ótica, ou de outro qualquer dos sentidos.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

RECÍPROCA DECLARAÇÃO


Quero que me rasguem todos os mistérios inexplicáveis.

Que me penetrem o espírito (alma ou o que quer que seja que eu tenha) todas as inquietações de quem vive em busca constante.

Que abusem do meu corpo e da minha mente todos os indecifráveis caminhos cósmicos.

Que estuprem minha pureza, ingenuidade e burrice diante do infinito todas as verdades ocultas nas sofisticações inatingíveis.

Que arrombem meus orifícios cotidianos todas as originalidades e estranhamentos.

Que deflorem minha flor mais recatada todos os atrevimentos do que vai além da minha miopia comportamental.

Que implodam minha inocência disfarçada no silêncio simulador todos os princípios estapafúrdios e também puros, embora dilaceradores.

Que destruam impiedosamente minha mal disfarçada ingenuidade todos os escancaramentos da verdade explícita.

Que me fodam as torpezas escondidas na covardia do meu calar todos os gritos de denúncia e de contestação.

Quero, enfim, arrancar abrupta e violentamente de mim todo e qualquer resquício de inverdade; destruir máscaras de hipocrisia; arrebentar grilhões de medos, prisões de cuidados, algemas de preocupações.

Liberdade! Eis o que busco. Com uma ansiedade desmedida.

Liberdade para ser o que sou. Para mandar a sociedade convencional, mão-única e mentirosa, ao raio que a parta ou à puta que a pariu.

Liberdade, por fim, para desposar o que de mais autêntico há em mim: EU.

Ah, EU TE AMO, Álvaro de Campos!!!

“Arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações...”

“Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!”

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. (...)
Pervertidamente e enroscando a minha vida
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis...”

“Todo o meu sangue raiva por asas!
Todo o meu corpo atira-se pra frente!
Galgo p’la minha imaginação fora em torrentes!
Atropelo-me, rujo, precipito-me!...
Estoiram em espuma minhas ânsias
E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos!”

“Poder rir, rir, rir despejadamente,
Rir como um copo entornado,
Absolutamente doido só por sentir,
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,
Ferido na boca por morder coisas,
Com as unhas em sangue por me agarrar as coisas...”

“Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo...”

Ah, EU TE AMO, “CARNIVORAMENTE”, Edson Tavares!!!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

LEI DE GERSON


Certas peças publicitárias entraram na vida de quem as fez e para a História, rendendo fábulas monetárias aos responsáveis pelo produto anunciado. Foram poucas, levando-se em consideração a quantidade infindável de propagandas produzidas cotidianamente, ao longo de quase um século de rádio e tv comerciais no Brasil.

Um anúncio que virou antológico, não pelo produto em si, mas pelo slogan nefasto que o identificava, é o de uma marca de cigarros (a marca, nem me lembro, mas a frase ficou), que apresentava como garoto-propaganda o então craque da Seleção Brasileira de futebol, tricampeã mundial, àquela época, Gerson: “para quem gosta de levar vantagem em tudo”.

Um sem número de explicações, ao longo dos anos, não foram suficientes para amenizar o estigma em que se meteu o jogador, que vê até hoje – e irremediavelmente – seu nome associado a uma prática condenável, politicamente incorreta: a “Lei de Gerson” irrita, arranca arroubos de revolta do mais pacato cidadão. Unanimidade (que não é burra, como queria Nelson Rodrigues): todos tacham o “jeitinho brasileiro” de ignominioso, uma aberração social, um flagrante desrespeito ao preceito legal e moral, universalmente aceito e defendido, de que todos são iguais e de que todos têm os mesmos direitos.

Pura e vã bazófia!

Tantos que clamam contra essa desgraçada prática, acomodam-se, calam-se, ignoram os maiores desrespeitos ao próximo, se eles não estiverem na situação de próximos, mais precisamente, se forem os privilegiados pela situação.

Estou cansado de presenciar nobres cavalheiros e arrojadas damas, escarlates de indignação ante a praxe danosa de se favorecer a alguns “escolhidos”, mas eles mesmos agirem com uma naturalidade doentia, quando são eles os beneficiários.

Gente que grita pela igualdade de todos, vejo furando filas descaradamente, porque se julgam importantes, pelo muito que já fizeram em termos de defesa social. Gente que se diz defensora intransigente dos direitos do povo, vejo entrando por uma porta lateral em ambientes lotados, para não se misturarem com o “povão” que se esmaga na entrada comum. Gente que se inflama contra a menor transgressão ou favorecimento ilícito, vejo “arrumando os pauzinhos” para, “por debaixo dos panos”, favorecer os seus...

PATIFES!!!

Tenho-lhes, a todos, meu mais profundo ódio, meu mais intenso desprezo. Não somente por se utilizarem da infame “Lei de Gerson”, mas, principalmente, pela vil hipocrisia que lhes reveste as ações, de se dizerem contra determinadas ações, brigarem (diria melhor latirem) contra elas, e, na primeira chance em que se pressentem privilegiados, não hesitarem em ser, eles próprios, protagonistas de tamanha vileza e falta de respeito.

O pior tipo de gente que freqüenta o mundo são os hipócritas. Pior que os safados explícitos, que os assassinos confessos, que os inimigos declarados. A estes sabemos quem são e o que pensam – estamos, de certa forma, preparados para lidar com eles. Ou, pelo menos, não nos surpreendem com suas ações. Foda são aqueles que, desavergonhadamente, representam um papel que nos cativa a simpatia – ou, no mínimo, não nos põe em posição de defesa em relação a eles – mas, por trás, agem de forma covarde, mostrando-se abjetos.

Entendo, por aí, a revolta de Álvaro de Campos com os “príncipes – todos eles príncipes – na vida”. Vomito-lhes meu rancor e minha raiva a todos aqueles que se aproveitam da momentânea situação favorável, para arrancar benesses, à custa dos outros.

Não, meu caro Campos, não é só você que tem sido vil, neste mundo de semideuses. É que apenas você tem a hombridade de assumir suas falhas. Enquanto isso, os salafrários, afanadores do direito que é de todos, estes, sim, é que são vis, literalmente vis, vis “no sentido mesquinho e infame da vileza”.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

AOS QUE ME QUEREM MÍSTICO-RELIGIOSO


Quando jovem, ouvia (e repetia) uma frase que me soava como desafiadora e aos outros como blasfêmia: “Acredito no Deus que fez os homens, não no deus que os homens fizeram”.

Com o tempo, o amadurecimento, os muitos questionamentos (que nunca fui de ignorar uma dúvida, menor que fosse), fui chegando a conclusões cada vez mais desafiadoras para mim, e blasfemas para os que não se arriscam a pensar em coisas delicadas, que possam pôr em risco sua frágil crença.

Com o tempo, vieram algumas certezas interiores: a primeira delas é a de que não foi Deus que fez os homens, mas os homens, ansiosos de uma explicação metafísica de seu surgimento, que construíram um deus que os teria criado. Pura mitologia.

E, como todo bom mito, era preciso que cada vez mais gente acreditasse nessa fantasia. Afinal, era cômodo ter uma explicação para o antes e o depois da vida. Essa justificativa de ter existido um ser superior que a teria criado e que a retoma, depois de certo tempo parece ideal. Nem irei aqui discutir os “argumentos” bem pouco amistosos que as igrejas usaram, e usam até hoje, para coagir os “fiéis” a acreditarem em suas estórias – desde violência física a chantagens emocionais.

Não sou místico-religioso. Nunca o fui; nem quando tentava parecer sê-lo, para agradar àqueles que isso esperavam de mim. E cada vez mais o misticismo piegas que presencio, cotidianamente, dá-me a certeza de que jamais o serei.

Concordo com Alberto Caeiro: “Pensar em Deus é desobedecer a Deus. / Porque Deus quis que não o conhecêssemos, / Por isso se nos não mostrou”. Se esse Deus, que dizem existir, existe mesmo, que tenho eu a ver com isso? Se ele é realmente tão superior e poderoso, não há de sobreviver dos meus louvores e chaleirismos. Ele está muito superior a tais manifestações chãs dos humanos. Muito menos anda carecendo dos meus eloquentes agradecimentos e orações. Os deuses estão muito ocupados com suas coisas divinas, para estarem prestando atenção em nossas lamentações, como diz o Ricardo Reis.

Sejamos sensatos: essas demonstrações religiosas estão mais para satisfazer a ritualística puramente humana das religiões, da sociedade, da comunidade, que para qualquer outra coisa. E sob esse aspecto, nada tenho contra quem age assim. Compreendo que há pessoas que precisam de rituais místicos para alcançar certo bem estar, como há pessoas que conseguem ficar bem plantando bananeira duas horas por dia ou lavando roupa ou esmurrando as paredes.

Chamam-me materialista – como, aliás, chamaram também a Caeiro: “Uma vez chamaram-me poeta materialista, / E eu admirei-me, porque não julgava / Que se me pudesse chamar qualquer cousa”. Eu me admiro, e acho até engraçado, às vezes, porque a matéria é a nossa única certeza real. Não falo aqui de certezas metafísicas, pois essas não são certezas, são suposições de certezas, frutos de repetições sem fim, até que se acostumem com as idéias. Uma fantasia repetida à exaustão e por muitos, termina por adquirir ares de realidade. Falo sobre a única convicção verdadeira: a matéria. Outra vez Caeiro clarifica: “Creio mais no meu corpo do que na minha alma, / porque o meu corpo apresenta-se no meio da realidade, / Podendo ser visto por outros, / Podendo tocar em outros, / Podendo sentar-se e estar de pé, / Mas a minha alma só pode ser definida por termos de fora. / Existe para mim (...) / Por um empréstimo da realidade exterior do Mundo.” E o poeta-mestre continua este poema com um questionamento bastante filosófico (apesar de sua insistente aversão à Filosofia): “Se a alma é mais real / Que o mundo exterior, como tu, filósofo, dizes, / Para que é que o mundo exterior me foi dado como tipo de realidade?”

É porque somos essencialmente exterior, somos o que vemos, meu caro Caeiro. O que não vemos imaginamos como gostaríamos que fôssemos. Daí essa fantasiada toda, em que o misticismo assume papel importante. Daí também essa cobrança constante de todos terem um Deus transcendente. Alberto Caeiro, cansado dessa exigência metafísica que a ele era feita, explodiu, poeticamente: “Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o. / Sou místico, mas só com o corpo. / A minha alma é simples e não pensa. // O meu misticismo é não querer saber. / É viver e não pensar nisso.”

Sinto-me mais rebelde que Caeiro: se quiserem que eu tenha um misticismo-religioso... esqueçam!!!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ENTRE O AMOR E O CIO



Não pretendo definir esses dois termos. O desbocado comentarista e a vovó-roqueira já o fizeram, poética e brilhantemente. Quero só ampliar as definições.

A distância que vai de um conceito a outro é a que se estende do espiritual ao físico, da emoção à razão.

Cio é o que existe. Por mais cru, desabonador, imoral, instintivo que pareça ser, é o que de fato existe. Sentimos isso. É uma energia real que percorre nosso corpo, pela cadeia nervosa que cobre quase toda a área corporal. Podemos nem saber como isso se dá, internamente, mas sentimos seus efeitos. Álvaro de Campos a nomeia como “Átomos que (...) / andam por estas correias de transmissão e por esses êmbolos e por esses volantes, / Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, / Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.”

A energia sexual gira em qualquer corpo minimamente sadio e vigoroso. Por ser natural, por ser manifestação da natureza – portanto, sem escolha de pessoa, de formação, de credo religioso ou ideologias – a lubricidade revela-se no corpo do adolescente do lixão, do morro ou da cobertura em Copacabana; no tarado, na prostituta, no padre, no pastor, na freira, no homem e na mulher comum. Campos diz ainda: “Todos os meus sentidos têm cio de vós!”

Essa energia é muito forte. Às vezes incontrolável. Mas, na maioria das vezes, canalizada para atividades “aceitáveis” e talvez necessárias à sobrevivência em sociedade. Uns a disfarçam em solidariedade, em amizade, em carinho; outros a utilizam para trabalhar compulsivamente; há os que a têm como eterna fonte de conflitos internos, entre o que têm vontade de fazer e o que acham que não devem fazer. Neurotizam-se.

Essa canalização da energia sexual, seu condicionamento social, sua rotulação mental é campo de domínio do “amor”. É a justificativa mais plausível (ou mais à mão) para o enjaulamento do cio nas perspectivas da convencionalidade. Mas “os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto / e os gestos que faz quando ninguém pode ver!”, como diz Álvaro de Campos, têm o poder de fazer desmoronar todo esse frágil edifício de areia a que chamam “decência” – por isso a necessidade fremente de mantê-los no “fundo do mar da vida”.

Por ser fugidio – uma vez que abstrato – o amor passa por infinitas e inúteis tentativas de definição. Confundem-se sentires. Há até o ensaio de estabelecer gradações emocionais: gostar é diferente de se apaixonar e de amar. Estabelecem-se classificações: amor de amigo, de primos, diferente do amor a um parceiro sexual. Montam-se esquemas de exclusividade: o compromisso social assumido com um “anula” o sentimento por outro(s). Produzem-se distinções: sente-se amor apenas por pessoas de um determinado sexo.

Isso tudo provoca uma neurose dos demônios, porque a energia pagã, a-social, a-moral e única que nos percorre, ignora descaradamente cada uma dessas classificações idiotas, e se manifesta como é: natural. Quando esse manifestar-se vai de encontro à artificialidade convencional dos “donos do amor”, o dono daquele corpo “entra em parafuso”, alimenta infindáveis sentimentos de culpa, ou se martiriza indefinidamente, ou ainda dá vazão a essa energia de forma clandestina.

E enquanto os homens e mulheres tentam engaiolar, classificar, rotular o “amor”, sem muito sucesso, o cio segue seu caminho ininterrupto de rio que desce, rumoroso e feroz, arrastando suas ribanceiras, destino do mar, que é para isso que foi criado e é isso que será, independente das frágeis barragens que tentam, em vão, represá-lo.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

JOVENS DOS ANOS 80...


EU fui jovem nos anos 80. Participava de grupos jovens, movimentos pastorais de juventude, movimentos sociais, de conscientização – que acreditava se dar pela via da evangelização. Exercitei minha participação política, afugentei a solidão de morar sozinho numa cidade desconhecida, construí boa parte das idéias que ainda defendo (amadurecidas, claro), plantei sementes cujos frutos são colhidos hoje – uns doces, outros amargos pra danar.

E, de repente, pego-me pensando no que deu todas aquelas idéias, onde foi parar toda aquela gente, soprada pelo vendaval do tempo, o que são feitos daqueles jovens que fomos, no início dos anos 80. Vem-me à mente a “lista” do Oswaldo Montenegro: “Faça uma lista dos sonhos que tinha / Quantos você desistiu de sonhar!”

O Padre Zezinho tinha uma canção, naqueles tempos, que nos era particularmente odiosa. Falava dos jovens de 15 anos, que tinham “coragem de sonhar”; dos de 20, que lutavam pelos seus sonhos; e dos de 30, que os arquivavam. E nós, envolvidos que estávamos em nosso “ministério redentor”, em nossa batalha infinda contra a alienação dos jovens, jurávamos de pés juntos que aquela sombria previsão jamais aconteceria conosco, aos 30 anos.

Dia desses, reunimos o pessoal de um dos grupos de que participei, há 25 anos. A maioria deles, eu não os via desde então. Rostos enrugados, cabelos brancos – ou sem cabelos... um incontável número de crianças e adolescentes atestavam o preceito de “crescer e multiplicar” – crescer não sei bem se realmente se deu, mas a multiplicação foi garantida...

Principalmente, o que mais me chamou a atenção é o que estão fazendo. A maioria deles, comerciantes estabelecidos, estatelados em suas vidas, com suas famílias normais, suas barrigas proeminentes, suas vidas cotidianas, lembram muito mais seus pais, à época, que mesmo os jovens que conheci. Vivem tranquilamente aquilo que achavam “um saco”, duas décadas atrás. Conversam-se sobre doenças, remédios, médicos, exames e coisas tais; ou sobre filhos e filhas, namorados e namoradas destes, estudos e futuro deles. Parece que nos anulamos ante nossos problemas.

Burgueses-ideológicos, eis o que somos. Os mesmos burgueses contra os quais destilávamos todo nosso santo veneno, anos atrás. Burgueses-virtuais, com todos os tiques e manias, preceitos, preconceitos e rótulos. E termino dando uma puta razão a Belchior: “Apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Agora mais do que nunca.

Espiritualmente, é interessante o levantamento da turma que se reencontrou: alguns distanciaram-se das atividades religiosas, engolidos pelo tempo – ou pela ausência deste – mas continuam com o rótulo de católicos e ainda se lembram da “oração da Paz”; outros continuaram sua atuação litúrgica, em encontros de casais, corais, missas...; uma boa parte – considerável parte – “converteu-se”, viraram evangélicos. E com o papo cacete de todo evangélico convertido, contrastando diametralmente com o que defendiam, quando jovens – aliás, repudiam aquela época, dizem que eram (ou éramos, todos) um “equívoco espiritual”, que somente depois que “aceitaram a salvação” ficaram miraculosamente entendidos e pós-doutores nas coisas de Deus.

Senti-me o mais fiel de todos, às minhas idéias de vinte e cinco anos atrás. Não mudei o rumo do que pensava e do que defendia; e de tanto insistir nessa rota, terminei saindo fora da vereda traçada pela Igreja. Aprofundei minhas reflexões e convicções. [Se bem que, já na época, eu não era lá muito compreendido, pelas coisas meio inusitadas que defendia]. Fiquei mais discreto, mas mais incisivo. E maduro para reconhecer meus diferentes momentos de hoje, beirando os 50: vivo fases em que tenho coragem de sonhar e acreditar nos meus sonhos, como aos 15; momentos em que luto idealisticamente por esses sonhos, como aos 20; e períodos em que a descrença dos 30 se abate sobre mim, sob a forma de realismo, de racionalismo. E nesses momentos não tenho a menor pena de perder, momentaneamente, a “coragem de sonhar”, pois reconheço, com o Bernardo Soares, no “Livro do Desassossego”, que “o mais alto de nós não é mais que um conhecedor mais próximo do oco e do incerto de tudo”. E nem por entender isto, desisto de continuar minha caminhada, mesmo que seja guiado por “uma ilusão”.

Ou não!

domingo, 7 de novembro de 2010

ARTE E "PORRA-LOUQUICE"


Fico observando esses artistas, que abundam talento por todos os poros, que pensam maravilhas poéticas, artísticas, e, no entanto, não conseguem se fazer respeitar. Ninguém os leva a sério, ninguém lhes credita o valor que eles julgam ter – e que talvez tenham mesmo.

A razão é explícita em suas atitudes. Confunde-se arte com mera emoção. “Esquecem-se”, nossos brilhantes artífices, de que se é a emoção que gera a manifestação artística (e, de fato é) não é apenas ela (a emoção) a responsável única pela sua expressão.

Da mesma forma que não se concebe um artista que não seja movido pela emoção, é inconcebível uma manifestação artística sem que haja uma racionalização, um direcionamento dessa emoção. “A obra de arte é primeiro obra, depois obra de arte”, afirma Fernando Pessoa. Ao contrário do que possa parecer, “racionalizar emoção” não é um paradoxo, é uma necessidade, uma condição “sine qua non” para que a arte exista. “A obra de arte, fundamentalmente – afirma, ainda, Pessoa –, consiste numa interpretação objetivada duma impressão subjetiva”.

Porque a arte tem, antes de tudo, uma função social. E não falo aqui somente da função transformacional da sociedade, que lhe é inerente. Falo de algo bem mais simples: a mera percepção do objeto artístico, pelo receptor, somente se dá a partir do preenchimento de determinados requisitos que são comuns a artista e a fruidor. Senão a obra não alcança a instituição de obra de arte.

Que se quebrem todas as amarras, todas as regras, tudo o que prende o artista, que deve ser alguém, antes de tudo, LIVRE! É o grito “revolucionário” daqueles que acham que a sistematização destrói o empírico. Pura ingenuidade: para se quebrar regras, necessário se faz, antes de tudo, conhecê-las.

Um poema, ou uma canção; um quadro, ou uma escultura; não se fazem apenas da inspiração. Há de haver atenção, experimentos, trabalho, cortes, ajustes – operações que, sem dúvida, são inerentes à razão muito mais que à emoção.

Vez por outra, escuto depoimentos que dão conta da reiterada resistência de “artistas” em ler, freqüentar uma universidade, estudar enfim, por medo de “perder” suas características artísticas, de “toldar” a verve que lhe é inata. Ora, a sistematização não tem força para destruir uma verdadeira inspiração; ao contrário, burila-a, faz-lhe mais incisiva, mais fértil – porque mais ousada, em dominar outros espaços. Se algum artista acha que perdeu sua capacidade emotiva, sua inspiração, porque começou a sistematizar a arte, é talvez porque nunca a tenha tido realmente; seria bom começar a se perguntar seriamente sobre a força de seu talento.

Arte é emoção direcionada. O não planejamento de ações, o desconhecimento do que seja um projeto, a não nitidez dos objetivos a alcançar através de determinada manifestação artística, não fazem a arte autêntica; mostram irresponsabilidade artística. Da mesma forma como o desligamento, a alienação, o arrebatamento, o escândalo gratuito, a rebeldia infundada, não fazem o artista original; identificam o “porra-louca”!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

LITERATURICES


Estava eu me perguntando sobre a função da Literatura. Para que serve o que escrevo, senão para ocupar-me o tempo enquanto escrevo e as gavetas (ou arquivos do computador) depois que escrevo?! Talvez, se me der na telha, se me não for muito trabalhoso, se tiver uma grande motivação um pouco mais duradoura, corro o risco de publicar, e ter a certeza de que pouco mais do que ninguém lerá.

Aí lembro do Raul Castagnino, que apresenta cinco possibilidades de razões para se escrever: o sinfronismo [essa palavra horrorosa fala da identificação existente entre homens de épocas diferentes] – a literatura teria esse poder de ultrapassar o tempo e unir sentimentos de homens distantes; a função lúdica do espírito, uma espécie de masturbação mental; a criação de uma outra realidade, como, aliás, reforça Bernardo Soares, no Livro do Desassossego: “A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida (...) [porque] simula a vida”; o outro extremo é a literatura como engajamento sócio-político; finalmente, saciar a ânsia humana de imortalidade.

De fato, esta última função, apontada por Castagnino, me parece a mais sensata. É verdade que temos essa ânsia de nos perpetuar. Sonhamos até com a eternidade física [definitivamente impossível], que dirá da eternidade de nos fazermos lembrados gerações e gerações além, através da virtualidade do que escrevemos?!...

O diabo é essa coisa de virtualidade. Supomos que sobreviveremos a nossa vida física nos escritos que deixarmos. Mas nada nos garante isso. Inúmeros requisitos são levados em conta. Quantos assim pensaram e quantos Machados ou Pessoas nós temos?! A seleção é cruel...

Sousândrade foi um ilustre desconhecido no seu tempo, ressuscitado mais de meio século depois, hoje venerado como um gênio; o tempo e o caminho entre o fracasso editorial de “Memórias de um Sargento de Milícias” e o reconhecimento de Manuel Antonio de Almeida como mestre, inclusive pelos modernistas-regionalistas de 1930, foi longo e árduo.

Mesmo assim, escrevemos, teimamos em registrar em textos nossos sentimentos, nossos pensares, nossas opiniões, nossos descontentamentos. É absolutamente impossível um levantamento, ainda que a grosso-modo, do quantitativo do que já escrevi até hoje, em quatro décadas de alfabetizado. Quantos leitores tive desse material? Quão inédito ainda sou para a enorme maioria dos que, acho, já deveriam me ter lido alguma coisa?!

Como Soares, “que me pesa que ninguém leia o que escrevo? Escrevo para me distrair de viver, e publico porque o jogo tem essa regra. Se amanhã se perdessem todos os meus escritos, teria pena, mas, creio bem, não com pena violenta e louca como seria de supor, pois que em tudo ia toda a minha vida”. E mais que sempre poderia escrever mais – não o perdido, evidentemente, mas o novo.

“Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale.”, diz Bernardo Soares. E depois de os versos feitos, como afirma Caeiro, “da mais alta janela da minha casa / Com um lenço branco digo adeus / Aos meus versos que partem para a Humanidade. // E não estou alegre nem triste. / Esse é o destino dos versos. / Escrevi-os e devo mostrá-los a todos / Porque não posso fazer o contrário / Como a flor não pode esconder a cor, / Nem o rio esconder que corre, / Nem a árvore esconder que dá fruto.”

Se há degustadores ou não... é outra história!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

MISTÉRIOS... SERÃO MESMO?!



O mundo é uma sucessão de acontecimentos torrenciais. São tantos e tão variados, que não temos condições de captar-lhes em sua totalidade. Por vezes deixamos escapar alguns óbvios – óbvios demais para merecerem nossa atenção, sempre à cata do excepcional.

A vida escancara-se ante nossos olhos cegos do novo, porque nós amamos “o que é velho”, como diz José Régio. Mas essa é nossa constituição: “corre em nossas veias o sangue velho dos avós”. Como querer que consigamos detectar o novo, no meio de tanta tralha velha e conservada, no meio de tanto bagulho imprestável, que a gente nem sabe ao certo por que guarda – e o pior – por que respeita...

E, afora isso, o extraordinário mesmo, deste universo em que estamos mergulhados, acontece sem que tenhamos consciência. O que de mais fantástico poderíamos classificar, não vemos; ou se chegamos a perceber-lhe algumas nuanças, terminamos por ignorá-las, achando-lhes absurdas demais para serem realidade.

Tontos! Limitados é o que somos, que só vemos o reles repetir-se cotidiano; que tememos o desconhecido, feito crianças perdidas na floresta; que nos assombramos ante qualquer coisa que não conseguimos explicar, em nossa mente porcaria.

Mas a verdade é que, como me ensina Bernardo Soares, “todos os dias acontecem no mundo coisas que não são explicáveis pelas leis que conhecemos das coisas. Todos os dias, faladas nos momentos, esquecem, e o mesmo mistério que as trouxe as leva, convertendo-se o segredo em esquecimento. Tal é a lei do que tem que ser esquecido porque não pode ser explicado. À luz do sol, continua a regular o mundo visível. O alheio espreita-nos da sombra.”

E não é nada de extraordinário, de sobrenatural ou metafísico. É pura e simples natureza se manifestando em suas formas mais comuns.

Nossa ignorância e nosso temor ante o inexplicável produzem conseqüências terríveis. Há gente que também não entende porra nenhuma de nada, a não ser de enganar os outros babacas, que, por sua vez, entendem menos ainda de qualquer coisa, a não ser de se deixar enganar por esses espertalhões.

É nossa aversão ao mergulho em busca de verdades mais profundas que faz com que pilantras aproveitem-se das sombras que nos espreitam e arranquem míseros cobres de quem já nem tem tanto, com o fito de garantir-lhes miraculosas sensações, revelações bombásticas, ingênuo conforto espiritual.

Estão nesse rol, os curandeiros de ocasião, macumbeiros que desvirtuam a cultura afro-brasileira em nome do vil metal, cartomantes, jogador de búzios, conversadores com gente do além – tudo gente que, a despeito da seriedade que pode existir em algumas dessas atividades, achincalha-as em nome do interesse financeiro próprio.

Quando conseguiremos enxergar, pos nós mesmos, as verdades extraordinárias que a natureza está a nos oferecer, e encará-las como normais, cotidianas, mesmo que para isso precisemos mergulhar em espaços virgens de nosso saber?!

“Ah, como as coisas cotidianas roçam mistérios por nós! Como à superfície que a luz toca, desta vida complexa de humanos, a Hora, sorriso incerto, sobe aos lábios do Mistério! Que moderno que tudo isso soa! E, no fundo, tão antigo, tão oculto, tão tendo outro sentido que aquele que luze em tudo isto!”

E não percebemos NADA!!!

domingo, 19 de setembro de 2010

A VERDADE DO ESPELHO


Alberto Caeiro elogia a imparcialidade do espelho: “O ESPELHO reflete certo; não erra porque não pensa.”

De fato, ele é fiel, ao nos mostrar a nós mesmos o que somos, como estamos realmente. Abomino trocadilhos infames, mas não posso me furtar a um: o espelho reflete sem refletir, e é isso que faz brotar o aplauso caeiriano.

E, por conta dessa sinceridade desumana, quantas decepções sofremos diante desse cristal cruel, que nada nos esconde! Ele é de uma indiscrição fulminante. Expõe-nos, explicitamente, em todos os nossos defeitos, nossas marcas, nossos mal disfarçados disfarces físicos.

Às vezes até nos assusta, como a Cecília Meireles: “Em que espelho ficou perdida a minha face?” O fato é que ele não mente jamais, não dissimula em nada nossa imagem.

Entretanto, pensemos duas coisas.

Primeiro: o que vemos não é exatamente o que mostramos-lhe; é nosso contrário. Igual, mas contrário. O reflexo direito é esquerdo; o movimento para um lado segue para o outro, e até nos acostumarmos como nosso avesso, não raro cometemos algumas “sobradas”.

Segundo: nossa imagem, por mais igual que seja, não somos nós. É imaginação argêntea, que se despedaça em inúmeros cacos, ao quebrar. O que vemos não é real; nós é que o somos. Foi esse o erro fatal de Narciso. A imagem nos repete, fiel e imediatamente, mas é repetição; falta originalidade; falta verdade.

Espelho se presta a ilusões também. Ilusão de ótica. Espelhos sobrepostos mostram-nos detalhes escondidos de nossa normal visão. Espelhos com estrutura alterada apresentam-nos posições inusitadas, formatos bizarros... mas todos falsos; só nós somos reais.
Quem se contenta em aceitar o espelho como verdade final sobre si mesmo pode estar entrando numa roubada. Você não é quem você vê naquele objeto vítreo. Você não “se vê” no espelho – você vê sua imagem, a imaginação do espelho.

Espelhos, com o tempo, oxidam. Manchas negras se espalham pelo campo de reflexão – perdão, de reflexo – tirando pedaços de imagens a quem se procura integral. Obriga o vidente a procurar melhor posição para se enxergar; e se vê ridículo.

Lembro de que, quando criança, encafifava com a velha pergunta: para onde vai a imagem do espelho, quando vamos embora? Com o tempo, descobri algo interessante: a imagem some dos nossos olhos. Ao tentar surpreender a imagem, olhando de repente, ei-la no espelho, com cara de abestalhado, tentando flagrar o nada.

Conclusão: a imagem do espelho não é do espelho; é nossa. Refletimo-nos na prata mas só enquanto estamos olhando. Volta outra imagem infantil: a de que bastava fechar os olhos para acabar com o mundo. Cúmulo do egocentrismo.

Este texto está refletindo um momento meu de ausência de reflexão...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

BOLHAS DE SABÃO



“As bolhas de sabão que esta criança
se entretém a largar de uma palhinha
são translucidamente uma filosofia toda.”

Alberto Caeiro tem razão: a fragilidade de uma bolha de sabão traduz, com uma fidelidade espantosa, toda a reflexão que desejo fazer sobre a vida.

Como a pluma da canção, que “voa tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento pra voar”, assim a bolha corta os céus, em sua transparência deformadora e se deixa levar pelo carinho da brisa, alçando vôos que só são possíveis pela sua fragilidade. Contraditório: a fragilidade que a faz voar é o determinante de sua curta existência – um vento mais forte, uma superfície mais brusca despedaçam-na em gotas multicores.

“Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
amigas dos olhos como as cousas,
são aquilo que são
com um precisão redondinha e aérea,
e ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
pretende que elas são mais do que parecem ser.”

Que importância têm as bolhas, em sua brevidade existencial? De que adianta tanto requinte geométrico em suas formas perfeitas ou seu bailado singular e sinuoso, no ar, se a duração não passa de segundos?! E mesmo assim, quedamo-nos a vê-las, em seu caleidoscópico refratar-se. E, mesmo assim, a criança que a constrói e a liberta do canudinho (de palha ou de plástico) embebe-se em sua beleza e singularidade. E não se cansa de fazê-las para ver se dissipar em segundos. Não se lhe questionamos porquês, nem razões, nem pretendemos que elas sejam mais ou menos duradouras do que são ou duram – e assim servem como mais um exemplo perfeito para o mestre Caeiro reforçar sua filosofia do mirar gratuito, do olhar para o mundo e “estarmos de acordo”.

Sonhos são como bolhas de sabão. Leves, transparentes, capazes de nos enternecer, excitar, assustar... Sonhos são disformes como bolhinhas de sabão, mas redondos, geométricos. Como as bolhas de sabão, os sonhos fogem ao nosso controle, tão logo nos desprendemos deles. E realizam suas sinuosas curvas como bem querem. A nós, resta-nos olhá-los e “estarmos de acordo”.

Fortes são os sonhos, como as bolhas separadas de nós. Fortes mas frágeis: ao movimento mais brusco, ao raio de sol no rosto, ao estremecimento mais acentuado, como a bolha, despedaça-se, ruindo aos poucos, misturando-se com a realidade.

Diferença: as bolhas destroem-se no espaço sem nos deixar a desagradável sensação de coisa perdida para sempre; sempre podemos fazer outra bolha, que, mesmo diferente da extinta, oferecer-nos-á, no momento que quisermos, sensações de prazer interrompidas pelo desmanchar-se da anterior. Sonho, não; sonho se desfaz e se esvai por nossos dedos, na mistura com a realidade, de que já falei, mas vão-se deixando-nos a horrível sensação de nunca mais – a constatação da não-realidade torna-se mais triste pela impossibilidade de retornarmos àquele ou a qualquer outro sonho. Não os dominamos; somos por eles completamente dominados. Nossos senhores, nossos algozes.

Mais uma vez, a razão caeiriana, a determinar a necessidade de não nos metermos a mexer no que é feito para tão somente ser contemplado: o sonho é assim, não aceita palpites, retoques; é como é. Aos sonhadores resta curtir o sonho, ciente da impossibilidade de interferir, de querer os porquês ou razões de existirem.

Assim como os sonhos, “algumas [bolhas] mal se vêem no ar lúcido, / são como a brisa que passa e mal toca nas flores / e que só sabemos que passa / porque qualquer cousa se aligeira em nós / e aceita tudo mais nitidamente”.

Nitidamente, como um girassol.

terça-feira, 27 de julho de 2010

CONTEMPLAÇÃO


Fala-nos, contido como convém a todo estudioso clássico, nosso querido Ricardo Reis, sobre a importância do deslumbrar-se diante do mundo, na contemplação gratuita das belezas do universo. Pensa muito como Alberto Caeiro, esse Reis. Muito pensamos – eu incluído – nessa necessidade de contemplação do inédito; até porque somente o inédito se presta à verdadeira contemplação.

“Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.”

É a “eterna novidade do mundo” de que nos fala Alberto Caeiro, para o que o “poeta da natureza” se sente “nascido a cada momento”.

A novidade com que corrobora Rainer Maria Rilke, na célebre carta a Franz Xaver Kapos: “Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde”. Como Caeiro: “E o que vejo a cada momento / É aquilo que nunca antes eu tinha visto”.

Para quem se embevece diante da natureza, esta lhe devolve tal observação sob a forma sublime da eterna novidade. Nada murcha; tudo “é imarcescível sempre”. Até que se murchem de vez, porque, aí, não é a natureza que perdeu o viço, mas a vida de quem observa é que se embaçou e ele “se encantou”...

Mas o homem sábio, o que sabe ver, contemplar a natureza, “sabe que a vida / passa por ele e tanto / corta à flor como a ele / de Átropos a tesoura”. Átropos, juntamente com Cloto e Láquesis, é responsável por cortar o fio da vida, segundo a mitologia, da qual Reis é fiel seguidor. As três deusas são determinadas em seu trabalho e fazem funcionar sua nefasta tesoura sem escolha de hora mais adequada ao vivente.

O sábio sabe que não sabe de sua hora, tanto quanto sabe que ela chegará repentinamente, e não será surpresa se inoportunamente. Que fazer? Entristecer-se com esse saber? Não, absolutamente. Eis o que deve ser feito, diz Reis:

“(...) fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu sabor orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes”.

Sente, o homem sábio, que a vida é uma festa, um dom de Baco, e a ele (a Dionísio), o homem devota seu agradecimento pelo dom, ao mesmo tempo em que ocupa seu tempo de espera de Átropos disfarçando o cinza do fim no vermelho cheiroso do vinho. Mesmo que as bacantes passem pelos seus olhos, pela sua vida e se percam nas nuvens eflúvias do que ficou para trás, novas imagens embriagadoras virão, e se mostrarão aos olhos contemplativos de quem sabe contemplar.

Por isso o homem sábio “espera, contente quase e bebedor tranquilo, / E apenas desejando / num desejo mal tido / que a abominável onda / o não molhe tão cedo”. Esperar, porque nada, além disso, pode o homem fazer, ante a definitiva onda. Esperar e torcer para que demore muito a espuma fatal arrastá-lo ao reino de Netuno.

E antes que isso aconteça, estão aí os deuses todos a nos permitir ver e desfrutar de todo o prazer contemplativo da natureza que se espraia ante nossos olhos e nossa vida. Então, esta é a ordem a ser seguida: vivamos intensamente o tanto que nos for permitido; contemplemos o tanto de natureza que nos cabe; saibamos encher nossos olhos e preencher nossa alma com a intensidade luminosa do eterno presente.

Assim faz o homem sábio.