
“Lá vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora.
E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira.
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar.
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça.
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...
De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...”
Lendo este trecho da “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa, não há como não pensar nesse fenômeno social tão popular quão intrigante: a feira. Acresça-se a isso o fato de eu ter morado em Caruaru, uma cidade que tem uma verdadeira vocação comercial para esse tipo de evento – acontecem dezenas de feiras semanais por aqui – o que me dá vasto campo de reflexão.
Primeira coisa que se observa: uma feira não tem planejamento. Começa do nada; inicia com alguém que disponibiliza algo para vender, em qualquer canto. Outro chega junto, mais outro; o primeiro já nem aparece mais, mas a rotina mercantil se estabelece. Desde a Idade Média é assim: não se sabe dos iniciadores de feira nenhuma. Verdadeira manifestação folclórica, no que tem de mais anônimo: autor veramente desconhecido.
Há os governantes que, em nome da organicidade urbana, tentam impor-lhe limites, determinar-lhe tempo e local para acontecer. Não conseguem sucesso: fluido demais, o fenômeno transborda sempre além do definido, cria leis próprias, mecanismos específicos de funcionamento. Se o administrador não entender isso – e são raros os que entendem – pouco ou nada conseguem, no trato com a feira.
Outro fato a se observar: a feira é o espaço mais miscigenado e mais democrático que existe. Há apenas duas classes, bem distintas, cada uma com suas funções, claramente definidas e meticulosamente respeitadas, porque nenhuma é superior à outra: quem compra [o feireiro] e quem vende [o feirante]. A este, é reconhecido o direito de tornar seu produto visível e agradável; é-lhe facultado estabelecer um valor de venda [que não atende a qualquer determinação oficial, mas apenas às tendências naturais do comércio daquele produto naquele dia e naquela feira – a mais bem acabada versão da lei da oferta e da procura]. Ao comprador, cabe perguntar o preço – e este pergunta sempre, mesmo que já saiba por já ter ouvido alguém perguntar e ter escutado a resposta; é como se a informação só tivesse valor se lhe for particularizada – é que o cliente precisa de um gancho para exercer a sublime arte da pechincha: precisa ouvir da boca do feirante o preço da mercadoria, para lhe dar impulso à negociação. Em seguida, vem o ato da escolha: meticulosamente, o feireiro cata o que julga ser as melhores unidades, apalpando, avaliando-lhe o aspecto...
Há mais duas classes, digamos, secundárias na feira: os freteiros, que se alinham mais ou menos aos feirantes, já que também são vendedores, só que de serviços; e os perus, aqueles que nada têm para vender, muito menos dinheiro para comprar. Vão à feira só pelo movimento, pelo divertimento – para jogar conversa fora, saber das novidades [excelente espaço de comunicação e espalhamento de notícias, devidamente adulteradas e comentadas], namorar... ou simplesmente observar, aprender...
Este últimos – eu incluso – podem perceber um terceiro caso: os momentos de que se compõe a feira. No primeiro, cedíssimo – madrugada quase – as frutas e verduras estão cuidadosamente arrumadas; há uma maior variedade na escolha, esta se faz mais fácil pelo fato de as mercadorias terem sido pouco mexidas; em compensação, é o momento mais caro, geralmente utilizado pela classe mais abastada. O durante, que corresponde à presença do sol, é o maior tempo. É quando a feira, de fato, acontece, naquela mescla que deixa a massa humana uniforme – de que já falei antes. O terceiro instante coincide com o declínio do sol, é também a decadência, tanto em termos de mercadoria quanto da classe social dos freqüentadores. Frutas e verduras amassadas – difícil encontrar que preste; os feirantes, na ânsia de irem embora, querem se livrar do que ainda lhes resta a qualquer preço, literalmente: o valor cai a quase nada. Os compradores avançam, céleres, sobre os produtos, numa inútil tentativa de escolha [na maioria dos casos, os molhos já estão feitos, para facilitar, e os valores, irrisórios].
Agora, aparece uma mutação de parte de uma daquelas classes secundárias de que tratei anteriormente: os famosos bêbados de fim de feira, tanto mais teimosos, renitentes, abusados e valentes, quanto mais copos de cachaça tenham ingerido: não raro dão-se furdunços nesses momentos – por um nada se puxa a faca ou empurra-se o contendor. Às vezes, quando a confusão é mais séria, chega a acabar a feira, o que, nas comunidades mais afastadas, corresponde a um acontecimento de grande repercussão, assunto para duas ou três feiras futuras.
Quão metafórica pode ser uma feira, no comparar consigo mesmo! Quão de feira pode existir no interior de cada um... Nem precisa ser poeta do tamanho de um Fernando Pessoa...