
Alberto Caeiro elogia a imparcialidade do espelho: “O ESPELHO reflete certo; não erra porque não pensa.”
De fato, ele é fiel, ao nos mostrar a nós mesmos o que somos, como estamos realmente. Abomino trocadilhos infames, mas não posso me furtar a um: o espelho reflete sem refletir, e é isso que faz brotar o aplauso caeiriano.
E, por conta dessa sinceridade desumana, quantas decepções sofremos diante desse cristal cruel, que nada nos esconde! Ele é de uma indiscrição fulminante. Expõe-nos, explicitamente, em todos os nossos defeitos, nossas marcas, nossos mal disfarçados disfarces físicos.
Às vezes até nos assusta, como a Cecília Meireles: “Em que espelho ficou perdida a minha face?” O fato é que ele não mente jamais, não dissimula em nada nossa imagem.
Entretanto, pensemos duas coisas.
Primeiro: o que vemos não é exatamente o que mostramos-lhe; é nosso contrário. Igual, mas contrário. O reflexo direito é esquerdo; o movimento para um lado segue para o outro, e até nos acostumarmos como nosso avesso, não raro cometemos algumas “sobradas”.
Segundo: nossa imagem, por mais igual que seja, não somos nós. É imaginação argêntea, que se despedaça em inúmeros cacos, ao quebrar. O que vemos não é real; nós é que o somos. Foi esse o erro fatal de Narciso. A imagem nos repete, fiel e imediatamente, mas é repetição; falta originalidade; falta verdade.
Espelho se presta a ilusões também. Ilusão de ótica. Espelhos sobrepostos mostram-nos detalhes escondidos de nossa normal visão. Espelhos com estrutura alterada apresentam-nos posições inusitadas, formatos bizarros... mas todos falsos; só nós somos reais.
Quem se contenta em aceitar o espelho como verdade final sobre si mesmo pode estar entrando numa roubada. Você não é quem você vê naquele objeto vítreo. Você não “se vê” no espelho – você vê sua imagem, a imaginação do espelho.
Espelhos, com o tempo, oxidam. Manchas negras se espalham pelo campo de reflexão – perdão, de reflexo – tirando pedaços de imagens a quem se procura integral. Obriga o vidente a procurar melhor posição para se enxergar; e se vê ridículo.
Lembro de que, quando criança, encafifava com a velha pergunta: para onde vai a imagem do espelho, quando vamos embora? Com o tempo, descobri algo interessante: a imagem some dos nossos olhos. Ao tentar surpreender a imagem, olhando de repente, ei-la no espelho, com cara de abestalhado, tentando flagrar o nada.
Conclusão: a imagem do espelho não é do espelho; é nossa. Refletimo-nos na prata mas só enquanto estamos olhando. Volta outra imagem infantil: a de que bastava fechar os olhos para acabar com o mundo. Cúmulo do egocentrismo.
Este texto está refletindo um momento meu de ausência de reflexão...
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