
“Nada existe, não existe a realidade, mas apenas sensações. As idéias são sensações, mas de coisas não colocadas no espaço e, por vezes, nem mesmo no tempo.
A lógica, o lugar das idéias, é outra espécie de espaço.
Os sonhos são sensações com apenas duas dimensões. As idéias são sensações com apenas uma dimensão. Uma linha é uma idéia.”
Sonhos, idéias e sensações. Três conceitos já tão discutidos filosoficamente, quanto inéditos, em termos de definição, mesmo de conceituação. Não custa alimentar um pouco essa larga discussão, com alguns pontos que me parecem interessantes.
De que matéria são feitos os sonhos?, já perguntava a Rosana Rios. De farrapos de vida real, aleatoriamente arrumados (ou desarrumados), gerando situações esdrúxulas, como cavalo com bico de pato e asa de urubu. Os sonhos de quem sonha dormindo, diga-se. Confusões gigantes, tanto quanto nossas tentativas “acordadas” de repressão dessas ações. Assustam-nos, nossos sonhos, porque parecem-nos querer entregar nossos mais íntimos segredos, nessa mistura louca de pessoas e fatos que não devem se encontrar.
Acordamos em frangalhos, se em meio a pesadelo tão terrível. E a sensação de alívio após o acordar é tão intensa quanto a sensação de temor e ansiedade no durante, quando ficamos como presos a algo alheio a nossa vontade.
Os sonhos que sonhamos acordados são mais calmos, mais tranquilos, porque manipuláveis; as dosagens são homeopáticas, e somente se fôssemos idiotas é que apostaríamos todas as nossas fichas neles. Sabemos das limitações e impossibilidades de realizá-los. Mesmo assim sonhamo-los, esperançosos.
Os sonhadores mais avoados correm atrás. Poucos os alcançam. A maioria morre longe de conseguir; outros perecem ao se agarrar ao leme do sonho, feito Moema de Santa Rita Durão. As sensações são de ansiedade e conformismo, numa eterna contenda. Daí, o equilíbrio necessário para ir “tocando a vida”, enquanto os sonhos não viram reais.
As idéias são mais atrevidas que os sonhos. Já são começo de realidade. Já se mostram como tentativas em direção à concretização dos sonhos, dos desejos. Tentativas limitadas, claro, mas expressão de uma vontade latente.
Ainda são poucos os que se arriscam a materializar essas idéias. A maioria acaricia-as a vida inteira, até que morram caducas e sem o menor sentido. E morremos juntos, sem saber se teria dado certo ou não. Sensação horrível, esta, de imprecisão de algo que não foi tentado. Idéias abandonadas pelo caminho são inúmeras.
Idéias erradas trazem uma dolorosa sensação de frustração. Mas, junto, vem a sensação confortadora do ensaio. Sei que quando a frustração é maior que a compensação da tentativa, ficamos uma porcaria. Na hora, a frustração invade a plenitude de todos os nossos espaços. Porém, com o tempo, esse sábio professor, vamos aprendendo a conviver com a falha, e terminamos por achá-la simpática e até por creditá-la como “pecado de juventude” e sair contando-a como exemplo ou mesmo piada.
Perceberam que Fernando Pessoa tem razão? Nada existe, a não ser a sensação. Tudo se traduz pelas sensações, pelo que sentimos. Nada nos chega sem passar pelos sentidos, já resmungava Aristóteles.
Daí porque a idéia filosófico-literária do Sensacionismo pessoano, no começo do século passado, teve tão forte impacto. Daí também porque a poesia essencialmente sensacionista de Alberto Caeiro tanto me comove, me completa, exprime o que penso:
TUDO SÃO SENSAÇÕES. O que passa disso é ledo engano, ilusão de ótica, ou de outro qualquer dos sentidos.
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