
Nesses dias de filosofar – Caeiro que me perdoe – ando pensando na existência das coisas. De fato, existe o que julgamos existir? O que percebemos seriam sombras do mundo real, como assinala Platão?
Daí eu penso mais: as coisas que existem (ou não) passam por um poderoso crivo – o da expressão. A maioria do que há – ou que penso que há – é inexprimível. Sinto-me, então, impotente ante a grandiosidade da realidade, tanto que minha pequenez se manifesta na quase absoluta incapacidade de exprimi-la.
Duplamente frustrado, tateio em busca de respostas que provem a existência dos seres, e das ainda mais complicadas soluções do problema do inexprimível.
Como poderei exprimir o problema, se o objeto tende a ter inexprimível sua parte maior? Como acenar com minha angústia em busca de ajuda? E, na vêrdade, quem quererá – ou poderá – me auxiliar nessa terrível (e inútil) busca?
Sozinho, então, eu, eu mesmo e a impossibilidade, vagamos, perdidos (mais: desencontrados de nós mesmos), na inócua busca da existência.
E se, de repente, descobrirmos que o inexprimível assim é por não existir de fato? E que aquela porção mínima que se exprime é a sombra, a ilusão de algo que nem existe?
Pior: e se eu tiver esses pensamentos na frente de um espelho?
Pouco me importam que digam que Fernando Pessoa é um novelo enrolado para dentro; ele, agora, dá-me a resposta de que preciso:
“Tudo o que toma forma ou ilusão
de forma, nas palavras, não consegue
dar-me sequer (...) a ilusão de ser
uma expressão disso que não se exprime
nem por dizer que não se exprime.”
E os exemplos pessoanos são elucidativos (isto é, não respondem nem elucidam nada):
“Idéia, essência, transcendência, ser,
tudo quanto de vago e sombra
possa ocorrer ao sonho de pensar.”
É... parece que o mestre Caeiro tem mesmo razão:
“Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.”
Ou não!!!
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