quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

FUGA DO PRESENTE


Às vezes canso do presente. E o presente é muito grande, ensina-me Carlos Drummond de Andrade. Mas não dá para ficar o tempo todo nele, grande poeta. Prefiro, por vezes me afastar um pouco. Não muito, como aconselhas. Apenas o bastante para poder contemplá-lo com um mínimo de isenção presencial.

Tantos se distanciam por caminhos os mais heterodoxos. E se afastam tanto que não conseguem mais retornar. Ficam perdidos, feito zumbis ou aquele filme que vi, quando criança, “Perdidos no Espaço”. Com a diferença que se perdem sozinhos, e vivem numa angústia da porra, tentando se encontrar de novo.

É que o transporte que utilizaram para sair do presente foi um barco furado. De início, até parece luxuoso, prazeroso... Mas, depois, a descoberta frustrante de que tudo não passou de ilusão e que o presente perdeu-se para sempre na escuridão do fundo sem fundo, essa descoberta põe o camarada a nocaute.

Não, não me agrada a idéia de usar a droga para divagar no tempo. Encontro meios mais seguros, mais deliciosos, mais orgásmicos. A literatura, o melhor de todos.

Decolo do presente chato, que me atormenta com sua mesmice sem sentido, sua ausência de criatividade, sua deficiência de originalidade. Embarco, mundos afora, numa viagem embriagadora – entrega total, alma e corpo retesados e arrepiados no mais autêntico prazer físico e espiritual que se tem notícia.

E o melhor, o caminho da volta está ali, naquele cantinho que conheço, e por onde posso me meter sempre que o não-presente também me cansar (que canso rápido das coisas, eterno andarilho em busca de novas sensações).

Num desses passeios infindos, topei com o Álvaro de Campos. Conversamos sobre a importância das portas, pontes e janelas. São meios de passagem. Permitem-me a possibilidade de transitar, de mudar de ambientes, de ares, de cenário; e isso é muito bom, porque me dá a sensação nítida de liberdade, de poder decisório sobre mim, meu corpo e minha alma. Vou e volto quantas vezes me der na telha, sem ter que dizer a ninguém onde vou, ou de onde acabo de chegar. Apenas vou ou chego.

Porta pra tudo! / Ponte pra tudo! / Estrada pra tudo!”, grita-me Campos. E eu deliro em seu grito libertário e me entrego, lúbrico, em sua poesia feita de emoção e arrepio, que me diz o que disse a Whitman: “Tua alma omnívora, / Tua alma ave, peixe, fera, homem, mulher, / Tua alma os dois onde estão dois, / Tua alma o um que são dois quando dois são um, / Tua alma seta, raio, espaço, / Amplexo, nexo, sexo, Texas, Carolina, New York, / Brooklyn Ferry à tarde, / Brooklyn Ferry das idas e dos regressos...” Ah! Poder gozar todo o prazer de te sentir penetrar em mim, Campos, é a mais deliciosa sensação poética que se pode experimentar. Também quero, como tu, “voar e cair de muito alto! / Ser arremessado como uma granada / (...) / Abstrato auge no fim de mim e de tudo!

Não, Drummond, o presente não é tão bom e tão importante assim, que não mereça, vez em quando, uma fuga como esta.

Raios partam a vida presente e quem lá ande!

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