sábado, 10 de julho de 2010

MOVIMENTO E VIDA



Um aspecto que Bernardo Soares aborda, no trecho 178, do Livro do Desassossego, diz respeito a nossa atuação em meio à situação de vida-morte. Não estamos parados, "no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar", como diz o Raul, mas nos movemos em meio a tudo que nos amedronta e que faz parte do que somos. Leiamos:

Povoamos sonhos, somos sombras errando através de florestas impossíveis, em que as árvores são casas, costumes, ideias, ideais e filosofias.

Mesmo que lúgubre a situação, mesmo que sombrio o comportamento, não estamos parados no meio do nada, esperando, estáticos, a “iniludível”. Povoamos sonhos, diz Soares, e isso exige uma dedicação, uma ação delicada, cuidada, pois que sonhos são feitos de matéria por demais fluída. Mas isso nem é tão difícil assim, pois, como sugere o texto shakespeariano, “da matéria dos sonhos nós somos feitos, nossa pequena vida é cercada pelo sono”.

Sombras errantes... Ainda que divagantes, nosso comportamento letárgico implica movimento. E só o que não podemos ser é imóveis, para a morte, pois aí, sim, seremos tomados como mortos definitivos. As florestas impossíveis, pelas quais vagamos, alimentam-nos, cuidam de nossa sobrevida. Não posso deixar de perceber a identificação dessa idéia com a proposta neopagã e panteísta de Alberto Caeiro, em relação à natureza. Tudo nosso são árvores: casas, costumes, ideias, ideais e filosofias. Seres dotados de vida, que obedecem a um ciclo pré-determinado (mas livre), em que está presente o crescimento e, portanto, o movimento. Árvores param de viver quando param de mover-se por si mesmas, quando se deixam arrastar pelos ventos, quando não reagem ante as adversidades.

Nunca encontrar Deus, nunca saber, sequer, se Deus existe! Passar de mundo para mundo, de encarnação para encarnação, sempre na ilusão que acarinha, sempre no erro que afaga.

Porque o encontro com Deus seria o final, a morte, o não mais ter o que buscar, o falecimento de todas as motivações da vida. Feito... (sei que vão aproveitar essa analogia para me espinafrarem, mas tudo bem... Ao diabo com as reticências!) feito aquela espiga de milho que se coloca na frente dos animais, para fazê-los andar, na imorredoura ilusão de um dia saboreá-la. Se alcançarmos a espiga, espreguiçar-nos-emos na relva, para nos deliciarmos com o milho, e depois dormiremos o sono da pança cheia. E aí virá um cachorro gigante, levantará a pata diante do estático, mijará em cima e nos enterrará.

Não, mil vezes não! Adiante sempre, mesmo que nunca encontremos o que buscamos; passemos por vidas, encarnações (se é que existem também), de braços dados com a ilusão e o erro. A verdade nunca, a paragem nunca!, exorta Bernardo Soares. A união com Deus nunca! Nunca inteiramente em paz, mas sempre um pouco dela, sempre o desejo dela!

É o desejo da paz, a busca de Deus, que nos manterão vivos, porque estamos e vivemos na procura obstinada de algo que, muito provavelmente, nem exista, senão para nos manter inteiros e esplêndidos, na caminhada pela vida (ou pelas vidas) para a morte.

Assim seja!

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