Deus (ou algo que o valha) deu-me a vida. A vida plena. Ou melhor, não ma deu. No máximo, permitiu que a tivesse. Junto com a vida, no mesmo pacote, veio uma dosagem considerável de liberdade, de arbítrio próprio. Intrinsecamente: não dá para imaginar a vida sem essa overdose de liberdade.
Homens criaram deus. E o utilizaram para melhor manipular outros homens. E criaram religiões que controlam vidas, que ditam regras para os outros cumprirem. E decidem suas decisões a respeito dos outros, que nem percebem que têm sua vida decididas por quem nada entende de ser o outro, de sentir o que o outro sente.
Deus cruel, pateta, esse criado pelos homens. Castiga, mas com justificativas tão descabidas que beiram o ridículo. Deus vira chicote na mão de pseudo-enviados divinos, ávidos de poder e de mais poder.
O arbítrio desce pelo ralo da intolerância e os fabricantes de deus sentem-se responsáveis responsabilizados pela própria divindade para a manutenção da paz e da ordem. Como esse deus não falou coisa alguma, e alguma coisa precisava ser dita ao povo, junto com o deus, no mesmo pacote, esses homens criam também o que deus disse. E chamam a isso de sua palavra. Torna-se documento oficial do céu, passado no cartório da Santa Ignorância, a arrastar milhares de fanáticos ao encontro com uma divindade que não compreendem; inevitável conseqüência: perdem-se de si mesmos e vivem o que poderia ser o melhor de suas vidas úteis numa letargia infinita.
Ricardo Reis quer dos deuses, desses deuses fajutos, criação de mentes perturbadas, Reis quer ser livre “como o vento que é a vida”. Em meio a discursos tão carregados de moralismos e preconceitos, a serenidade de Ricardo Reis me conforta:
“O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
cada um com seu modo, nos oprimem.”
Não quero dádivas desses deuses de barro, desses deuses que são invencionices de gente perturbada. Somente a quem esses “deuses concedem nada, tem liberdade.” Eu tenho a minha liberdade e, como a Loucura de Zé-Régio, “Levanto-a como um facho, a arder na noite escura, / E sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios...”
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