quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A SAUDADE É CINZA



Fim de festa. Fim de folia. Amores de três dias, com a intensidade louca, própria de momo, despedaçam-se, acinzentam-se no nada desta quarta-feira ingrata.

Promessas (vãs) inda ressoam nos ouvidos e no cheiro um do outro, que ainda recende nos corpos cansados de pular e amar. Mas agora já não há mais carnaval – o festival da carne acabou. As serpentinas jogadas pela brisa da manhã rolam na rua tristonha.

Um último confete grudado, teimosamente, num banco de praça, como a testemunhar a passagem da alegria.

Carnes humanas exploradas ao máximo do prazer, e com permissão do outro; carnes turbinadas por litros etílicos e o bafo sensual de Baco, Vênus e Cupido, conspirando juntos. O gozo carnal sendo a concretização física, sensível, de toda essa loucura.

Nesta quarta-feira, somente cinzas de tudo isso.

A saudade é cinza, indefinida cor, entre o preto e o branco, entre o desejo de mais viver e a certeza do necessário termo.

Da fogueira crepitante dos dias de lascívia descontrolada – apenas contida pela indispensável camisinha – resta somente a agonizante e morna letargia do que se esvai.

Novas promessas – auto-promessas, essas – de breve reencontro, de que tanto amor não pode acabar assim, e que – “você vai ver” – logo estarão juntos de novo. Bobagem! Sabem os dois do impossível de a situação continuar. E mais: que a vida grita cá fora por retomada, e a azáfama diária encarregar-se-á de anestesiar dores, sarar feridas, disfarçar cicatrizes. Pelo menos até o próximo carnaval.

Como diz Álvaro de Campos:
“Ah, a minha tristeza dos barcos que passam no rio,
sob o céu cheio de sol!
A minha agonia da realidade lúcida!
Desejo de chorar absolutamente como uma criança.”

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